Eficiência de eletrodomésticos: Brasil está lotado de falsos A

O seu equipamento economiza energia conforme prometido? Você sabe, o mercado brasileiro está cheio de falso “A” em termos de eficiência energética. Entenda o problema.

No Brasil, quem compra uma geladeira ou freezer e escolhe o aparelho hoje é porque vê o rótulo do Inmetro como “A”, o que teoricamente prova que se utiliza a tecnologia mais inteligente em termos de aproveitamento de energia, então pode ser “gato por lebre”. O problema é que os produtos que agora são considerados “A” cobrem uma ampla variedade de produtos, muitos dos quais são muito ineficientes.


Isso acontece porque o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) para os refrigeradores, que deveria auxiliar o consumidor a escolher os equipamentos que consomem menos energia, não é atualizado desde 2006. 


Eficiência energética e sustentabilidade

A eficiência energética ainda é um tema pouco conhecido pelos consumidores. Basicamente, é um parâmetro por meio do qual é possível avaliar se os aparelhos eletrônicos usam energia de forma razoável, ou seja, a função menos dispendiosa.


Quando o assunto é refrigeradores, o atraso na atualização do programa nacional que estabelece esses parâmetros pode estar enganando o consumidor. E se um aparelho obsoleto pesa no bolso de uma pessoa, vários aparelhos obsoletos custam muito caro para o meio ambiente.


Afinal, a eficiência energética dos aparelhos encontrados dentro de todos os lares é importante para garantir melhores condições de sustentabilidade no setor elétrico. O consumo menor de energia proporcionado por equipamentos mais eficientes garante economia de água dos reservatórios das usinas hidrelétricas, evita o uso de eletricidade mais cara das usinas termelétricas e reduz as emissões de gases que causam mudanças climáticas.

A etiqueta do atraso


O PBE é coordenado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) para classificar equipamentos, inclusive refrigeradores, por meio de rótulos com listras e letras coloridas, onde o grau “A” representa o produto mais eficaz. Ou seja, aqueles que consomem menos energia. Esta etiqueta é um guia importante para os consumidores compararem e escolherem o dispositivo mais eficaz no momento da compra.


Acontece que, como a tecnologia evolui todos os dias, essa classificação precisa ser revisada de tempos em tempos para que continue sendo um bom guia. É aí que está o problema. No Brasil, a revisão sobre os refrigeradores não acontece desde 2006. Com o atraso na atualização, quem compra um refrigerador hoje já não consegue fazer sua escolha baseada na etiqueta porque todas são “A”, as demais letras não estão sendo sequer disponibilizadas. Ou seja, o PBE está passando uma informação enganosa ao consumidor, levando-o ao erro de comprar produtos que não são os mais eficientes como se o fossem.


Manter a revisão da etiqueta vai além disso: serve para incentivar a indústria a continuar implantando avanços tecnológicos em seus produtos para destacá-los entre os concorrentes, justamente com o apelo da maior eficiência. Quando a maioria dos produtos está na classe mais eficiente (“A”), perde-se esse incentivo. Perde o consumidor e perde a economia brasileira.


Com a revisão, a etiqueta forneceria informação mais confiável ao consumidor e auxiliaria na tomada de decisão ao permitir que ele possa comparar equipamentos parecidos para optar por aqueles mais eficientes. Felizmente, o processo de revisão foi iniciado pelo Inmetro no final de 2020 e a consulta pública deve acontecer nos próximos meses. No entanto, precisamos estar atentos para o que está sendo proposto.

Como resolver o problema?


A Rede Kigali, que reúne organizações preocupadas em conscientizar a população sobre a importância da eficiência energética, alerta que a mudança, que foi apresentada pelo Inmetro em reunião com as partes interessadas, em fevereiro, pode confundir ainda mais o consumidor. O projeto prevê a adoção de uma fase intermediária de revisão que inclua subníveis de classificação dentro da categoria A (A+, A++, A+++), modelo que causou muitas dúvidas nos consumidores nos lugares onde foi adotado, como União Européia e Tailândia. Para se ter uma ideia, a União Européia adotou essa solução em 2010 e, três anos depois, os problemas foram tantos que forçaram uma nova revisão, com a retomada do esquema anterior “puro A”, atualmente em vigor. 


A Rede Kigali é composta pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), Clasp, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), International Energy Initiative (IEI Brasil), consultoria Mitsidi, Projeto Hospitais Saudáveis (PHS) e rede de jovens Engajamundo. Para esse grupo, é preciso que o Inmetro proponha  uma revisão feita imediatamente com base nos critérios mínimos do Energy Star, um padrão internacional de consumo eficiente originado nos Estados Unidos, que mantém as faixas de classificação da etiquetagem atual com letras de que vão de A a C, D ou E. Bem mais fácil de entender, não é? Então vamos ficar de olho.

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